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Quase 20% dos professores da Educação Básica atuam em mais de uma escola

Baixos salários, contratos instáveis e regras de atribuição de aulas ajudam a explicar essa realidade, que afeta a saúde dos profissionais e o acompanhamento dos estudantes

Redação 1
Por: Redação 1
26/10/2026 às 12h47
Quase 20% dos professores da Educação Básica atuam em mais de uma escola

O dia da professora Flávia Oliveira começa por volta das 4h30. As primeiras aulas geralmente são às 7h, mas, antes disso, ela já precisa se preparar e enfrentar os deslocamentos. Sua semana se divide entre três instituições em Maricá e Niterói (RJ). São aproximadamente 43 horas semanais, distribuídas nos três turnos.

 

Há mais de 20 anos, Flávia trabalha em diferentes instituições. A rotina inclui aulas, planejamentos, reuniões, atendimentos às famílias e registros pedagógicos, nem sempre possíveis de concluir durante o expediente. “O trabalho docente não termina quando saímos da escola. Ele continua em casa, ocupando horários que deveriam ser destinados ao descanso e à família”, relata.

 

A experiência ajuda a dimensionar um problema nacional. Segundo levantamento da Fundação Carlos Chagas (FCC), com base no Censo Escolar de 2023, 19,4% dos professores brasileiros da Educação Básica - cerca de 457 mil profissionais - atuam em mais de uma escola. Nos Anos Finais do Ensino Fundamental, a proporção chega a 34,4%; no Ensino Médio, a 36,4%.

 

A concentração da jornada docente em uma única escola aparece entre as estratégias propostas para o novo Plano Nacional de Educação (PNE). O desafio, porém, é complexo. Estudos mostram que o fenômeno está relacionado tanto à remuneração quanto à maneira como as redes organizam a contratação dos profissionais e a distribuição das aulas.

 

A conta que não fecha no final do mês

A remuneração tem peso importante nessa equação. De acordo com o estudo  Education at a Glance 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o salário anual inicial dos professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental no Brasil equivale a US$ 25.710, cerca da metade da média de US$ 49.712 registrada nos países da organização. Os valores são expressos em dólares ajustados pela paridade do poder de compra, indicador que permite comparar o poder de compra dos salários entre diferentes países.

 

A professora Michele Prudente, por exemplo, ocupa dois cargos efetivos, nas redes estadual e municipal de São Paulo. Ela é polivalente, ou seja, leciona Matemática, Língua Portuguesa, Geografia, História, Ciências e Projeto de Convivência. As duas escolas ficam no mesmo bairro, o que facilita os deslocamentos, mas a rotina exige conciliar calendários e demandas de redes diferentes. 

“O que me levou a buscar dois cargos efetivos é muito simples: o governo não paga o suficiente para o cargo de professora”, afirma. Michele depende dos dois salários para manter a casa. “O cansaço é real, mas não há outro jeito. Sou só eu com as despesas de casa”, completa.

 

Seu caso evidencia um limite das mudanças na atribuição de aulas: mesmo que cada rede consiga concentrar a jornada de seus profissionais, isso não elimina a necessidade de acumular empregos quando a remuneração é insuficiente.

 

Luana Cornelio da Silva também precisa de diferentes vínculos para compor sua renda. Professora de Língua Portuguesa e Literatura, trabalha em quatro instituições públicas e privadas, com turmas de diferentes etapas, inclusive da Educação de Jovens e Adultos. Ao longo de 22 anos de carreira, conheceu realidades escolares distintas e passou 15 anos trabalhando em uma mesma instituição.

 

“Só trabalho em mais de duas instituições porque preciso. Senão, as contas não fecham no final do mês”, conta. Luana valoriza a diversidade de experiências profissionais e a possibilidade de não depender de uma única fonte de renda. Isso, porém, não significa que deseje manter a rotina atual. Se pudesse escolher, trabalharia em até duas escolas, com mais tempo para os estudantes e para a vida pessoal.

 

Porém, não é só salário

Mas o relatório Trabalho docente em uma única escola, da série Pauta Evidências, da FCC revela uma situação que não depende necessariamente da busca por um segundo emprego: pouco mais da metade dos professores que trabalham em várias escolas atua dentro de uma única rede de ensino. Isso significa que o próprio vínculo pode exigir a circulação entre unidades para completar a carga horária.

 

Gabriela Moriconi, pesquisadora e coordenadora do estudo da FCC, explica que essa situação é especialmente frequente nos Anos Finais e no Ensino Médio. Nessas etapas, os docentes são especialistas em componentes curriculares e atendem a diferentes turmas. Em escolas pequenas ou em disciplinas com poucas aulas semanais, pode não haver horas suficientes para completar a jornada em uma única unidade.

 

A dificuldade também está nas regras de atribuição de aulas. Quando a distribuição ocorre em diferentes etapas ou restringe o professor a uma única disciplina, diminuem as possibilidades de concentrar seu trabalho em uma escola.

 

“A situação reflete uma visão ainda bem comum que enxerga os professores como ‘fornecedores de aulas’, ao buscar maximizar o número de aulas que cada profissional leciona por semana, mesmo que isso demande o deslocamento entre várias unidades escolares”, afirma Gabriela.

 

Uma alternativa identificada pela pesquisa é organizar a atribuição de maneira que o docente possa reunir, em uma mesma etapa, as aulas dos componentes para os quais está habilitado, ampliando as chances de completar a jornada em uma única escola.

 

 

Contratos que transferem o risco ao professor

O relatório da FCC também chama a atenção para os modelos de contratação. Concursos para jornadas parciais, ampliações temporárias de carga horária e contratos por hora-aula, sem um mínimo de horas garantido, podem deixar a renda do professor sujeita às oscilações na oferta de turmas.

 

“Nós observamos todo um conjunto de políticas de contratação que transfere o risco pela incerteza da demanda por matrículas aos professores, levando expressiva parcela de docentes a assumir a responsabilidade e o risco de compor uma carga horária completa - o que frequentemente ocorre por meio da atuação em mais de uma escola”, explica Gabriela.

 

Essa instabilidade pode levar o docente a procurar aulas adicionais a cada ano ou manter outro vínculo para reduzir a insegurança financeira. No caso dos temporários, a perda de aulas pode ocorrer até durante o ano letivo, caso um efetivo retorne à unidade.

 

A fragilidade dos vínculos aparece também na comparação internacional. Segundo a OCDE, 63,5% dos professores brasileiros dos Anos Finais possuem contratos permanentes, diante de uma média de 80,7% nos países da organização.

 

O que a escola perde com a jornada fragmentada

Os efeitos de trabalhar em várias escolas não se restringem ao cansaço dos professores. Cada instituição tem reuniões, projetos e demandas próprias, e conciliar essas atividades pode dificultar a participação do docente na vida escolar.

 

Gabriela explica que estudos brasileiros identificaram menor envolvimento desses profissionais em atividades coletivas, como conselhos escolares e elaboração do projeto político-pedagógico, além de dificuldades para participar dos horários de planejamento conjunto. Há também evidências de associação entre o trabalho em múltiplas escolas e resultados piores de aprendizagem, especialmente entre os estudantes mais pobres, além de prejuízos à saúde dos professores submetidos a jornadas extensas e fragmentadas.

 

Para Haroldo Corrêa Rocha, diretor-geral do Movimento Profissão Docente, a questão atinge a própria organização do ensino. “Uma criança não se desenvolve pelo trabalho de um único professor, e sim pelo trabalho da equipe escolar. Então, o professor que está em várias escolas, não é de nenhuma equipe escolar. Ele é um fornecedor de aulas”.

 

A construção desse trabalho coletivo depende de tempo para acompanhar os estudantes, trocar informações com colegas e participar das decisões pedagógicas. Quando a jornada está dividida entre muitas unidades, essas oportunidades ficam mais limitadas.

 

A sobrecarga também se estende à vida pessoal. Flávia conta que as exigências profissionais frequentemente avançam sobre o tempo com a família. “Para alcançar uma remuneração que considero digna, muitas vezes, preciso abrir mão de momentos de lazer com minha filha e meu esposo para atender às demandas profissionais.”

 

 

O que os professores querem (e o que já mudou)

Segundo o relatório Trabalho docente em uma única escola, 86,9% dos professores que responderam ao questionário da pesquisa preferem a carga de 40 horas semanais em uma única escola. Isso não significa passar todo esse tempo em sala de aula: a jornada também contempla atividades de planejamento, avaliação, reuniões e outras demandas pedagógicas.

 

Uma experiência recente mostra que mudanças administrativas podem ajudar a aproximar essa expectativa da realidade. Na rede estadual de Mato Grosso, por exemplo, a proporção de professores que atuavam em apenas uma escola passou de 83,5%, em 2024, para 90,4%, em 2025, segundo relatório do Movimento Profissão Docente e da Secretaria de Estado de Educação.

 

A mudança envolveu a reorganização da atribuição de aulas, com prioridade para a concentração da jornada em uma unidade. Foram revistos blocos de horários, regras de distribuição, jornadas de 20 ou 40 horas e possibilidades de atuação em componentes relacionados à formação dos docentes, dentro dos critérios estabelecidos.

 

Na avaliação de Haroldo, esse tipo de reorganização não exige necessariamente mudanças na legislação nem aumento de gastos. O principal desafio está nas decisões de gestão e nas adaptações tecnológicas, que precisam ser planejadas com antecedência. Em Mato Grosso, a preparação durou cerca de nove meses, com participação das áreas pedagógica, administrativa e de tecnologia. O resultado mostra avanços na concentração das jornadas, mas não constitui, por si só, uma avaliação de impacto sobre a aprendizagem.

 

Para Gabriela, a experiência reforça que é possível reorganizar o trabalho docente sem depender exclusivamente da expansão das escolas de tempo integral. “Não é imprescindível que a escola seja de tempo integral para que esse outro modelo de organização do trabalho docente seja implementado”, pontua.

 

A pesquisadora defende o planejamento da necessidade de professores, a realização periódica de concursos e a oferta de jornadas mais estáveis. Essas medidas podem reduzir a fragmentação produzida pelas próprias redes, mas não resolvem isoladamente a insuficiência salarial.

 

As trajetórias de Michele, Luana e Flávia mostram por quê. Para que concentrar a jornada em uma única escola deixe de ser apenas uma preferência e se torne uma possibilidade real, mudanças na gestão precisam caminhar junto com remuneração adequada, vínculos seguros e condições de trabalho que permitam aos professores participar plenamente da vida escolar.

Fontes  www.novaescola.org.br/conteudo/22737/professores-atuam-em-mais-de-uma-escola

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